© Hugo Barreto/ Especial Metrópoles

DF tem aumento de 130% no número de crianças em situação de rua


Um velotrol em tons de rosa sobressai em meio a barracas de plástico improvisadas em um terreno baldio no Distrito Federal. É nesse local que a catadora de materiais recicláveis Maria Aparecida Silva, 38 anos, enfrenta a dura rotina de criar seis filhos, sem um teto seguro para morar. Os pequenos, que cresceram nas ruas e ajudam a mãe a vender balas pelas cidades, fazem parte da estatística dos mais de 200 crianças em situação de rua na capital do país. Os dados, referente ao mês de outubro, são da Secretaria de Desenvolvimento Social do Distrito Federal (Sedes-DF) e revelam um aumento de 130% em comparação com o mesmo período de 2019.

“Morar na rua nunca foi escolha. Eu nasci, cresci aqui e mesmo tentando quebrar o ciclo, não consegui. Quem está na rua não tem resguardo, não come direito e não tem ninguém que se preocupe. Mas, ainda que vivamos assim, eu não desisto dos meus filhos. Estamos na rua, mas estamos juntos. Meu maior sonho é ter a minha casa, para que eles possam estudar, mudar de vida e ficar em segurança”, conta Maria Aparecida.

Assim como a mãe, Karine Silva, 10 anos, também tem grandes sonhos. Sentada próximo a um fogão à lenha, improvisado no chão para esquentar água que seria consumida pela família, a menina revelou timidamente ao Metrópoles que um de seus maiores desejos é ter uma casa onde ela possa ficar “longe de todo tipo de violência”.

“Eu gosto muito de estudar e sei o quanto a escola é importante para o futuro. Então, quando eu crescer, eu quero ser policial para poder ajudar as pessoas, sair das ruas e para proteger toda a minha família”, relata a menina que faz parte das mais de 2 mil pessoas desabrigadas no Distrito Federal.

De acordo com levantamento da Sedes, 2.400 pessoas declararam morar nas ruas da capital do país em outubro deste ano. Desse total, 200 são crianças e 68, adolescentes. No mesmo período de 2020, havia 125 crianças e 53 adolescentes nessa situação. Isso significa que, em um ano, outros 90 menores de idade ficaram desabrigados no DF.

De acordo com a psicóloga Maria da Penha Oliveira, a criança em situação de rua vive experiências adversas à infância ou adolescência, o que gera altos níveis de estresse, riscos e vulnerabilidade. Problemas esses que podem causar transtornos psicológicos, emocionais e cognitivos no futuro.

“Certamente, algumas vivências na rua podem prejudicar ou retardar o desenvolvimento da criança ou do adolescente, como a falta de rotina alimentar e segurança, por exemplo. No entanto, há algo ainda mais importante que não pode faltar a esses jovens: o afeto. Eles precisam de um adulto que cuide, que eles confiem, e que tenha carinho recíproco, pois todos somos seres de cuidado e para sobrevivermos precisamos de alguém que zele, oriente e proteja”, afirma a psicóloga.

É pensando nisso, e com receio de perder a guarda dos filhos, que Emili Santos Gomes, 28 anos, atualmente desempregada, pernoita em abrigo e leva todos os cinco filhos com ela para vender guloseimas nos sinais de trânsito.

A mãe solo, que têm enfrentado dificuldades após ter sido vítima de tentativa de feminicídio pelo ex-companheiro, conta que os filhos são tudo o que ela tem.

“Quando as crianças me perguntam por que estamos na rua, eu me sinto muito mal porque não era essa a vida que eu queria para eles. Mas se eu não tiver um modo de alimentá-los e sustentá-los, o governo toma eles de mim. Você acha justo separar a minha família porque eu não tenho um teto? Eu não quero perdê-los e o único jeito de conseguir dinheiro sem deixa-los sozinhos é trabalhando nas ruas”, diz a mulher, enquanto seus olhos não contêm as lágrimas.

Observando a cena, com uma bandeja nas mãos composta de produtos que serão vendidos no sinal, Andressa Santos, 10, filha de Emili, conta que gostaria que a família tivesse ajuda para que a situação melhorasse.

“A minha mãe nunca nos deixa sozinhos, estamos sempre juntos. No entanto, viver na rua não é legal. Aqui, as pessoas não gostam da gente. Muitos nos humilham e desprezam. Meu sonho é ter uma casa para viver com a minha família e ter um quarto com cama”, conta a pequena.

Maria e Emili, assim como diversas outras famílias vulneráveis que não quiseram ter suas histórias contadas, afirmam que em outras ocasiões em que deram entrevista, tiveram mais prejuízo do que ajuda. De acordo com elas, ao ter noção da situação em que se encontram, o governo vai atrás para derrubar os acampamentos e para retirar a guarda das crianças, em vez de oferecer ajuda.

De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o Estado é legalmente responsável por crianças e adolescentes, mas deve investir, acima de tudo, em educação, saúde e, principalmente, na família para assegurar direitos.

Políticas públicas

Não há romantismo em crescer nas ruas. As condições extremas levam a problemas extremos. Apesar de existirem famílias como a de Maria Aparecida e de Emili, que se esforçam para garantir a sobrevivência dos filhos com um pouco de dignidade, há também as que exploram, as que são incapazes de se cuidar por abuso de drogas, lícitas ou não, dentre outros motivos.

De acordo com a Sedes, as equipes do Serviço de Abordagem Social fazem rondas pelas regiões administrativas, acompanham as pessoas que vivem em invasões e orientam os moradores que se autodeclaram em situação de rua, sobre como ter acesso a benefícios sociais. Quando as equipes encontram crianças ou adolescentes sozinhos pelas cidades, o Conselho Tutelar é acionado e fica responsável pelo acompanhamento do menor.

No caso das famílias com crianças e adolescentes e situação de rua, os agentes sociais procuram fazer um atendimento de forma a mostrar para os pais os riscos que estão sujeitos. Dessa forma, são ofertadas as vagas nas unidades de acolhimento, a inclusão no cadastro único é realizada e começa um trabalho do atendimento sócio assistencial para a superação da situação de rua. Apesar das iniciativas do governo, as soluções são todas paliativas, uma vez que a permanência dessas pessoas é limitada a 90 dias, bem como os benefícios sociais.

“Sensibilizar e conscientizar a sociedade para a importância dos cuidados na primeira infância é fundamental para se construir um adulto seguro. O trabalho é preventivo e deve-se pensar na criança com o olhar voltado para as suas famílias. O investimento do Estado deve ser em políticas públicas que fortaleçam as famílias na construção e no fortalecimento dos vínculos”, finaliza Maria da Penha.

Com informações do Metrópoles.