© Sergio Flores/Getty Images

‘Continuaram batendo mesmo depois da morte’, diz tio de congolês morto no Rio de Janeiro


Uma pessoa doce, inteligente e que respeitava a todos. Assim Mamanu Idumba Edou, 49, descreve o sobrinho Moise Mugenyi , encontrado sem vida na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, na segunda-feira passada (24).

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Família e amigos denunciam que o jovem congolês foi espancado até a morte por cinco homens depois de cobrar salários atrasados. Segundo os relatos, o valor era referente a três dias de trabalho.

À reportagem, Edou diz que, quando Mugenyi foi cobrar o valor, o gerente do estabelecimento pegou um pedaço de madeira para atacá-lo. “Ele chamou mais quatro pessoas que pularam em cima do Moise, pegou ele pelas costas, sufocou e pegou um pedaço de pau. Começaram então a bater na cabeça dele”, diz Edou, relatando as cenas que a família viu em imagens das câmeras de segurança do local.

“Mesmo depois de morto, os caras continuaram batendo nele. Largaram o corpo perto do quiosque mesmo, amarraram as mãos dele, colocaram elas para trás. Moise morreu, mas continuaram torturando ele.”

Segundo Edou, os agressores ameaçaram um colega de Moise que estava no local, dizendo que ele morreria caso falasse alguma coisa. Depois de fugir, o homem chegou em casa e avisou que Moise estava morto na praia. “Nós estamos apavorados com o que aconteceu. É muito triste. É muita covardia. A gente sabe que não terá o Moise de volta, mas a gente quer justiça. “

A Polícia Civil afirma que analisou câmeras de segurança para apurar o crime e identificar os responsáveis. Segundo a corporação, ao menos oito pessoas já foram ouvidas na investigação. O gerente do quiosque onde Moise trabalhava deve ser ouvido ainda nesta terça-feira (1º).

O tio do jovem diz que Moise chegou ao Brasil com 11 anos na condição de refugiado político e que, atualmente, morava em Madureira, na zona norte do Rio. Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, de 2011 a 2020, 53.835 pessoas foram reconhecidas como refugiadas no Brasil, das quais 1.050 delas eram congolesas, ou seja, 2% do total.

São pessoas que buscaram abrigo no país fugindo de conflitos armados no Congo e de violações dos direitos humanos. Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), entre 2017 e 2019, esses conflitos obrigaram cerca de 5 milhões de congoleses a saírem de suas casas.

A comunidade congolesa no Brasil divulgou uma carta de repúdio contra a morte de Moise. “Esse ato brutal não somente manifesta o racismo estrutural da sociedade brasileira, mas claramente demonstra a xenofobia dentro das suas formas contra os estrangeiros”, diz a nota de repúdio, lembrando que o Brasil é signatário de convenções que garantem a proteção dos direitos humanos.

“Por isso exigimos a justiça para Moise e que os autores do crime junto ao dono do estabelecimento respondam pelo crime! Combater com firmeza e vencer o racismo, a xenofobia, é uma condição para que o Brasil se torne uma nação justa e democrática”, afirma o comunicado. ​

Nas redes sociais, a morte do jovem gerou repercussão. Com a hashtag #JusticaPorMoise, que esteve entre os assuntos mais comentados do Twitter, perfis de usuários e de organizações sociais demonstraram revolta e cobraram punições à tragédia, que tem sido considerada mais uma demonstração do racismo e da xenofobia presentes no Brasil.

A Anistia Internacional afirma que o sonho de Moise e de sua família de viver uma vida digna no Brasil foi “covardemente interrompido” e que “seu assassinato não pode ficar impune!”.

Já a ex-deputada Manuela d’Ávila (PCdoB) escreveu que o racismo está destruindo vidas no Brasil. “Absurdo, revoltante e inaceitável o caso do imigrante congolês Moise, que estava apenas cobrando o pagamento de seu salário num quiosque na Barra da Tijuca e foi assassinado a pauladas. O racismo segue destruindo vidas em nosso país! Queremos justiça!”

As informações são do Folhapress